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Notícias Gerais : Volta ao Mundo de Bicicleta - Cycling Around the World - PERU Parte III
Enviado por Ítalo Leonardo em 11/10/2009 00:10:00 (896 leituras)

VM LogoDiário de Viagem – Brasil - Peru.


Veja o diário de viagem com belíssimas histórias de Valdecir João Vieira, (Valdo), 65 anos, que neste momento está realizando uma ciclolviagem de Volta ao Mundo de Bicicleta.

Valdo partiu de Joinville-SC para pedalar por 63 países passando pelos 05 continentes pedalando mais de 50 mil quilômetros num período de aproximadamente 04 (quatro) anos.

Vamos ao diário!!!


Total pedalado até 19 / 06 / 2009 = 3.577 km
Horas pedaladas = 269h

 
01/06/2009 – PERU
Lima → Chancay = 83 km em 6h32min
Total pedalado até hoje: 2.756 km
Horas pedaladas = 214
 
Terminaram os meus dias em Lima e era preciso retomar a viagem. Iniciei a pedalada às 6h40min com uma temperatura de 15 graus. O pátio do colégio e o asfalto na rua estavam molhados. Uma garoa muito fina deve ter passado por ali, mas quando saí não chovia. O céu, como em todos os dias que passei em Lima, estava cinzento. Eu estava a quatro quilômetros do centro e precisei de mais de 30 km para sair da cidade. O trânsito era intenso. Ainda bem que encontrei uma ciclovia que me levou até fora da cidade. O problema era que a ciclovia era muito estreita e era preciso parar para cruzar com outro ciclista. Para aumentar ainda mais a confusão todo mundo queria caminhar pela ciclovia. O jeito era tocar em cima dos pedestres para que eles saíssem da ciclovia. Quando acabaram as várias cidades emendadas umas nas outras e entrei no deserto o trânsito ficou bom.

Eu tinha duas opções, fazer 150 km ou apenas 80 km. Estava disposto a tentar os 150 km, mas ao chegar aos km 50, optei por seguir pela montanha e peguei duas grandes subidas que me fizeram alterar os planos.

Castelo de ChancayCastelo de Chancay

Cheguei a uma cidade chamada Chancay às 15 h e fui procurar um lugar para pernoitar. No primeiro “Hostal” que parei para perguntar o preço que a dona Elisa Fernandes Flores, queria me cobrar era de 30 Soles. Pela qualidade do “Hostal” o preço era razoável, mas não para o meu bolso... Agradeci e ela baixou o preço para 20 Soles. Já ia sair, pois é possível encontrar lugares mais simples por 10 soles, mas a senhora Elisa me deteve. Falei que tinha pouco dinheiro e que costumo acampar quando encontro um lugar seguro.

Ela me levou ao pátio interno e me mostrou um lugar para acampar sem precisar pagar nada. Era tudo o que eu queria. Na hora de escolher o lugar para armar a barraca, vi que ao lado havia um galpão com um bar desativado. Não tive dúvidas. Armei a barraca dentro do galpão onde havia luz e banheiro. Falei para a senhora Elisa que eu ia colocar o nome do “Hostal” na Internet e ela ficou contente.

02/06/2009 – PERU
Chancay → Huacho = 73 km em 5h22min
Total pedalado até hoje: 2.829 km
Horas pedaladas = 220
 
Uma noite muito tranquila. Somente na hora da despedida eu me identifiquei. Recebi um abraço, um beijo e um pedido de oração por um sobrinho que está com leucemia.

Iniciei a viagem com a intenção de fazer 120 km. No segundo quilômetro iniciei uma subida daquelas enjoadas que não acabam nunca e pouco a pouco vão minando as energias.

Depois de alguns quilômetros, quando pensei que ia melhorar, aí sim foi que piorou. Já não conseguia mais subir pedalando e começou a operação empurra-empurra.  Decidi então pernoitar em Huacho. Tinha um contato do Hospitality Club, mas infelizmente ninguém atendeu ao telefone. Procurei por um “Hostal” e achei mais de um por $10 Soles. O problema era que os três estavam no primeiro andar e era preciso subir com a bicicleta. Escolhi um que tinha a escada mais larga e com a ajuda do recepcionista levei a “Tanajura” até o quarto, que por sinal, era bastante amplo.

Na hora do banho a água quente não funcionava. Resolvemos com um balde de água quente e lá fui eu para mais um banho de cuia.

Durante a viagem vi uma cena no mínimo curiosa. Dois funcionários da empresa de manutenção da estrada estavam recolhendo lixo na beira da auto-estrada. Os peruanos têm o péssimo costume de jogar lixo pela janela do carro e do ônibus. É impressionante ver a quantidade de garrafas pet de todos os tamanhos ao longo da estrada. Nas saídas das cidades o deserto fica tomado de lixo. Que vergonha!

Antes de chegar a Nasca, dormi num acampamento, perto dos vigias noturnos. Pela manhã eu tinha esvaziado um pote de marmelada. Como eu não queria levar a embalagem vazia, perguntei ao guarda onde estava a lixeira. Ele mandou que eu jogasse ali mesmo. Como eu não via nenhuma lixeira, ele disse que eu deixasse ali que depois ele ia por no lixo. Enquanto eu preparava a bicicleta ouvi o seguinte comentário por parte de um deles:
- Viu a preocupação dele com o lixo? Os estrangeiros são assim, estão preocupados com o meio ambiente. Nós peruanos jogamos o lixo em qualquer lugar.
Acho que não seria errado dizer que podemos medir a cultura de um povo pela quantidade de lixo que encontramos na estrada. Neste ponto o nosso Brasil serve de exemplo.

Panamericana Norte durante a neblina
Neblina no Deserto
Estou viajando quase ao nível do mar. A umidade é muito grande. Desde bem antes de Lima que não vejo mais o sol. Dizem que são 300 km assim. Muita neblina que às vezes chega a ser quase uma garoa. Chuva por aqui só nos três primeiros meses do ano. Mais um dia de pedalada e saio deste clima sombrio.
 









03/06/2009 – PERU
Huacho → Paramonga = 60 km em 3h38min
Total pedalado até hoje: 2.889 km
Horas pedaladas = 223
 
Uma etapa bastante curta como preparação para a próxima, que vai ser 90 km de deserto. Na verdade vai ser uma etapa normal, mas pelo simples fato de as pessoas falarem que não há nada entre as duas cidades, eu fico um pouco ansioso.

Paramonga
Cheguei a Paramonga, a última cidade antes de entrar no deserto, antes do meio dia. Como sempre, o passeio pela cidade desperta a atenção dos curiosos. Ouço vários tipos de comentários. O mais chato que escuto com freqüência, por causa da bandeira, é:
- “Brasil, o país “mais grande” do mundo”.

Muitos dão risadas. Ainda não descobri o que é que eles vêm de tão engraçado. Uma coisa é certa, estou evoluindo. Em Rio Branco eu era o “Tio”. Depois que entrei no Peru passei a ser “Papá” e de Lima para cá evolui mais uma vez. Agora sou o “Abuelito”, ou seja, avozinho. Só uma vez escutei um idiota dizer “ho, ho, ho” por causa da barba. Em Joinville, quando a minha barba estava grande, sempre havia um bando de idiotas que gritavam “ho, ho, ho”.
A frase mais original que ouvi foi em Lima. Uma criança disse para a mãe:
- “Mira Mamá, uma Moto Bicicleta”.

Achei genial a associação das duas coisas.
Estou pedalando ao nível do mar, perto da praia, mas o tempo continua cinzento. Já estou com saudades de ver a cara do sol. Às 14 horas a temperatura está em 18 graus.

04/06/2009 – PERU
Paramonga → Huarmey = 91,6 km em 6h40min
Total pedalado até hoje: 2.889 km
Horas pedaladas = 230
 
Coisas interessantes acontecem numa viagem como essa. Ao chegar à cidade, aproximei-me de uma banca de revista para pedir informação sobre hospedagem. Aqui no Peru existem três categorias: Hotel com um preço mais elevado; “Hostal” que pode ser de até três estrelas, mas também pode ser econômico e a “Hospedaje”, geralmente mais barata. Como nos outros países, aqui também depende muito de cidade para cidade. O preço da habitação mais simples com banheiro compartilhado (estou usando o linguajar daqui), é de $10 Soles, ou seja R$ 7,70 o que se torna bastante acessível, mas mesmo assim não dá para exagerar e sempre que posso procuro acampar.

Meu amigo Hernán de Paramonga
Meu amigo Hernán de Paramonga

Voltando à banca de revista, um senhor que estava olhando os jornais ouviu a minha pergunta, mas não disse nada. Depois de encontrar um lugar para ficar, saí para dar uma volta pela praça, acessar a Internet, etc. Na praça aproxima-se de mim o Sr. Hernán Broncano Moreno de 70 anos, professor de matemática e me faz várias perguntas sobre a bicicleta e a viagem. Era o mesmo senhor da banca de revista. Conversa vai, conversa vem, ele queria que eu conhecesse outro professor, amigo dele e que tinha a minha idade. E assim, às 20 h ele foi ao Hostal onde eu estava hospedado e me levou até a casa do amigo Prof. Perez. Foi uma noitada muito interessante e, modéstia à parte, com conversa de alto nível. Na verdade os três éramos professores. Quando fui dormir já eram quase 23 h e às 5h30min o despertador me tirou da cama.

Existem poucas praias frequentadas ao longo da Panamerica Norte
Existem poucas praias frequentadas ao longo da Panamerica Norte
Eu estava meio ansioso com os 90 km de deserto sem nada no meio, mas venci sem maiores dificuldades. Havia algumas subidas pesadas onde tive que empurrar a “Tanajura” e outras bastante compridas que iam minando as energias aos poucos, mas depois vinha a compensação da descida. Pedalar no meio do deserto é interessante porque a paisagem vai mudando sempre. O que permanece inalterado é a cor da areia. De vez em quando a estrada se aproxima do mar. É gostoso ouvir o barulho das ondas, mas para se aproximar da água é necessário enfrentar a areia pesada. Por isso eu só olho a água de longe... 


Entrei na cidade de Huarmey e fui procurar alojamento. Aconteceu uma cena curiosa. Os curiosos se aproximaram de mim e uns 10 mototaxis, os famosos triciclos peruanos, fecharam a rua. Foi preciso vir a polícia para fazer o trânsito circular. Era a primeira vez que eles viam uma coisa tão rara assim. Perto de onde eu estava parado havia uma corporação do Corpo de Bombeiros. Levaram-me para lá, pois eles diziam que os bombeiros iam me dar apoio. Nem precisei falar, eles mesmo me apresentaram ao bombeiro. O jovem fechou a porta e foi falar com o comandante. Voltou em seguida e disse:
- O meu comandante disse que está proibido hospedar turista aqui.
- Obrigado, disse eu.
Um jovem que tinha me acompanhado com o Mototaxi disse:
- Que raro. O senhor tem barraca?
- Tenho, disse eu.
- Então vamos lá em casa que tem um lugar para armar a barraca.
Era o Jimy, irmão da Gedi, cabeleireira, esposa do Ladislau. Coloquei a bicicleta na garagem e armei a barraca na parte superior da casa onde está sendo construído o segundo piso. Foi excelente, o único problema foi que não havia lugar para tomar banho, mas um dia sem banho não mata ninguém.

05/06/2009 – PERU
Huarmey → Casma = 83 km em 6h6min
Total pedalado até hoje: 3.066 km
Horas pedaladas = 236
 
A etapa de hoje foi na verdade uma continuação da de ontem. O deserto era o mesmo, só as subidas eram mais pesadas. Havia algumas de 5 km continuados, que iam minando as energias bem de vagar. O velocímetro não passava dos 9 km/h. Já estou ficando experto em pedalar morro acima. Também, ao nível do mar é bem mais fácil. Já estou pensando em trocar o pédevela para desenvolver mais velocidade. Estou usando um de 24, 34, 44, mas o melhor seria 28, 38, 48 como eu tinha antes de usar o Nexus Wave com as 8 marchas internas. Mas isto vai ser só quando eu chegar à Colômbia. Até lá tenho que me contentar com pedalar só até 32 km/h na planície.

A recepção em Casma foi mais modesta, mas mesmo assim fui fotografado e alguns curiosos me acompanharam até o “Hostal” e me ajudaram a subir com a bicicleta pela escada acima. Já está virando moda subir a escada carregando 55 quilos. Eu tiro alguma coisa, uns 10 quilos e depois faço uma boa física com a bike nas costas. Se para subir é difícil, para descer não é menos complicado. Aos poucos vou me acostumando com este pequeno detalhe.

06/06/2009 – PERU
Casma → Chimbote = 60 km em 4h16min
Total pedalado até hoje: 3.126 km
Horas pedaladas = 240
 
Como a etapa era curta eu não tinha muita pressa para iniciar a viagem, mesmo assim às 7 h já estava na estrada. Depois de alguns quilômetros no vale verde, entrei de novo no deserto e começaram as subidas. Algumas ladeiras eram um pouco fortes, mas em geral consegui subir pedalando.

Cheguei a Chimbote às 11 h e me dirigi à Av. Peru para encontrar a casa do Todd onde eu ia me hospedar. Achar a rua foi tarefa fácil, agora encontrar a indicação S-7 foi impossível. Uma busca feita no mapa da cidade revelou que esta legra não existe nesta avenida. Ainda tentei procurar em outra rua onde havia a letra S, mas não deu resultado. O jeito foi seguir adiante até Santa a 10 km de distância.

Chimbote é uma cidade grande dividida por um rio. Na parte onde eu estava era a Chimbote Nova e quando atravessei a ponte vi a placa dando as boas vindas a Chimbote a capital do peixe. Perguntei a um taxista se havia outra Av. Peru e a resposta foi negativa. Um senhor de mais idade me garantiu que a avenida X se chamada também Peru. Eu procurava por um missionário e fui logo encaminhado para o Padre Juanito, que segundo eles era quem eu estava procurando. Pelo sim e pelo não fui procurar o tal de Padre Juanito. Pedalei alguns quilômetros e como não vi igreja nenhuma, desisti da ideia e segui adiante para chegar a Santa.

Os curiosos eram muitos. Alguns mototaxis me acompanharam durante um bom trecho. Quando eu menos esperava, vi uma igreja. Aproximei-me e o vigia já me fez entrar no pátio. O Padre Juanito está nos Estados Unidos, mas tem um leigo responsável que poderá atendê-lo. Fui muito bem recebido e já me encaminharam para a casa do gringo onde me alojei.

A Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro é um modelo de Obra Social que emprega 90 funcionários e atende desde a Creche até os cursos profissionalizantes, passando por refeitórios para pessoas carentes.

Periferia de Chimbote
Periferia de Chimbote
O Padre Juanito recebe o apoio dos seus conterrâneos americanos e irlandeses e leva a obra adiante com as doações que recebe. Nom mento está nos USA com um grupo de cantores fazendo campanha para coleta de dinheiro durante dois meses.

O ajudante dele é o P. Juan, peruano muito dinâmico que me acolheu com muita amabilidade. Durante a celebração da Eucaristia me apresentou à comunidade que me acolheu com palmas. Gostei de conhecer esta obra na periferia pobre da cidade. 
 
 
 
 
 
 

08/06/2009 – PERU
Chimbote → Chao = 69 km em 4h44min
Total pedalado até hoje: 3.195 km
Horas pedaladas = 245
 
Altar da Paróquia do Perpétuo Socorro em Chimbote.
Altar da Paróquia do Perpétuo Socorro em Chimbote. Umgrande aquário pois a cidade é a capital da pesca.
Os dois dias passados na Paróquia do Perpétuo Socorro, do Padre Juanito foram muito bons, mas era preciso continuar a viagem. Tive um atendimento VIP. Consegui um livro sobre a vida do Padre Juanito com o título:

AN ORDINARY MAN:
AN EXTRAORDINARY MISSION
The story of Father “Jack” Davis
and his mission to Chimbote, Peru.

Embora seja um peso a mais ara carregar, vou ler com muito carinho. Chimbote seria um ótimo lugar para fazer um pouco de voluntariado. Vou ficar atento daqui para frente e onde houver possibilidade vou parar por alguns meses.

Aminha intenção era pedalar 130 km e chegar a Trujillo, na casa do Lucho que já hospedou mais de mil cicloturistas do mundo inteiro. Tenho interesse em conhecer o sistema dele, pois ao terminar o meu projeto vou construir a Casa do Cicloturista em Barra Velha.

Pneu Estourado
O que acontece quando a pressão é superior à suportada pelo pneu.
A viagem seguia normal. Os primeiros 30 km foram na planície, mas depois começou uma subida lenta, matadora, de 15 km onde a velocidade não passava dos 11 km/h até chegar ao pé da montanha onde foram mais 2 km empurrando a “Tanajura”. Finalmente cheguei ao topo. Coloquei a minha capa corta-vento e iniciei uma linda descida chegando a 62 km/h. Mas a alegria não durou muito. Apareceu um barulho estranho na roda dianteira. Parei, examinei a roda, mas não encontrei a causa do barulho. Na terceira parada descobri onde esta a causa do barulho. O pneu dianteiro tinha estourado a lona.
 
Esvaziei um pouco o pneu e continuei a pedalar até chegar a Chao as 12 h, onde resolvi passar a noite. Como eu estava usando a fita protetora consegui fazer mais 10 km sem furar a câmara. Achei uma hospedagem boa com apartamento, TV a cabo e lugar para colocar a bicicleta dentro do quarto no piso térreo, por cinco dólares.

Troquei o pneu e comprei outro para levar como reserva. O pneu que estourou era da marca Pirelli e só agüentou 650 km. Muito pouco, pois o normal é chegar a 4.000 km. Agora estou usando um Sheng Shin Tire e espero que dure um pouco mais. Comprei um Kenda 24 X 2,10 para levar como reserva. O jovem da loja onde comprei o pneu era também mecânico e fez uma regulagem no câmbio dianteiro que estava desregulado. Imaginem que ao entrar num túnel, o segundo em toda a Panamericana, a corrente caiu e trancou. O túnel era escuro e estreito. Tive que subir no acostamento para ajustar a corrente e esperar o momento certo para poder continuar.

09/06/2009 – PERU
Chão → Trujillo = 66 km em 4h32min
Total pedalado até hoje: 3.262 km
Horas pedaladas = 249

Deixei o “Hostal” às 7h40min. A etapa era curta e eu não tinha muita pressa em chegar ao destino. A estrada continuou como sempre com longas subidas minando as forças aos poucos. No meio do caminho encontrei uma plantação de uvas. Comprei e devorei dois lindos cachos. 

Faltavam 30 km para chegar ao destino quando um carro passou por mim e parou. Era o Wolfgang, um austríaco que eu tinha conhecido no dia 13 de maio nas termas de Ccnoc, perto de Cusco. Ele viaja sozinho, de carro. Passei a ele o endereço da casa do cicloturista aonde eu ia me hospedar e à noite ele veio me visitar. Marcamos para amanhã uma visita ao sitio arqueológico de Chan Chan.

Casa do Ciclista em Trujillo
Cicloturistas na casa do Lucho, a Casa do Ciclista em Trujillo
Cheguei a casa do cicloturista em Trujillo sem ser esperado, pois o Lucho não tinha respondido à minha mensagem. 

Para minha surpresa encontrei sete cicloturistas hospedados aqui. Alguns já estão a mais de 10 dias. São dois brasileiros, uma norte-americana, dois franceses e um casal de canadenses.

Assinei o livro de visitas com o número 1245.











Araceli, Lance, Lucho e Angela
Araceli, Lance, Lucho e Angela
O Lucho é um jovem idealista, simpático e acolhedor. Não havia lugar para mim, mas ele abriu espaço numa sala de aparelhos de som e eu fiz a minha cama no chão. Ao contrário do que eu pensava, o ambiente é muito simples e nem sequer tem uma cozinha. Os cicloturistas, porém, se sentem muito à vontade aqui. Amanhã o casal canadense vai seguir viagem e ai chegar mais um francês. Vou aproveitar para descansar alguns dias aqui.







  
     
 
 
 
 
Hora da partida em Trujillo
Hora da partida da casa do Lucho em Trujillo
Encontrei aqui uma balança eletrônica e matei a curiosidade sobre o meu peso. Bati o record da magreza: 75 quilos. A última vez que tinha chegado a este peso tinha sido em 1972 em Turim. Confesso que me admirei, pois não esperava tão pouco. Iniciei a viagem no dia 15 de março com 88 quilos. Já se foram 13 quilos. Está aí uma boa dica para quem quer perder uns quilinhos. É só pedalar pelas cordilheiras peruanas conduzindo uma bicicleta com 55 quilos... Não há barriga que resista!

Trujillo
09/06/09 a 15/06/09
 
Lucho e Família um exemplo a ser seguido. Cheguei a Trujillo com a intenção de ficar apenas dois dias e acabei ficando sete dias na casa do ciclista. O que mais impressiona é que a casa não tem nenhuma infra-estrutura para acolher o cicloturistas. Num quarto com 3 camas estão dormindo cinco pessoas. Um casal dorme numa cama de solteiro e outro dorme no chão. 

Eu improvisei meu quarto na sala de instrumentos para duas noites e fiquei sete noites. Alguns ciclistas ficam aqui por duas ou três semanas. O banheiro e o chuveiro com água fria, único para uma família, um inquilino e 8 ciclistas, funciona normalmente sem problemas. Água encanada só durante o dia e não existe caixa d’água. A água para o vaso sanitário é recolhida num tambor. E pensa que alguém reclama? Pelo contrário ninguém quer mais sair daqui. Parece que a simpatia e o bom atendimento do Lucho contagia as pessoas.

Réplica de Ídolo de Chan ChanSitio arqueológico de Chan Chan
Réplica de Ídolo de Chan Chan

Sitio arqueológico de Chan Chan
Aqui em Trujillo visitei os sítios arqueológicos de Chan Chan e pedalei um pouco pela cidade. Acompanhei o Lucho numa comunidade de periferia onde ele ensina bateria para os jovens, descansei bastante e engordei um quilo! 
 






18/06/2009 – PERU
Piura → El Alto = 154,63 km em 8h55min
Total pedalado até hoje: 3.440 km
Horas pedaladas = 260
 
A semana que passei na casa do Lucho, a Casa do Ciclista foi excelente. O problema foi que me deixou um pouco preguiçoso. É bom demais ficar vários dias na companhia de pessoas que têm o mesmo ideal e falam a mesma linguagem da aventura em duas rodas. A troca de informação enriquece muito. Esta foi a minha primeira experiência. Espero ter outras durante a viagem.

Houve, porém, um ponto negativo. O relato de vários assaltos a ciclistas numa cidade a 50 km de Trujillo chamada Pajan. O Lucho queria me acompanhar até passar o perigo, como tem feito com outros ciclistas. Na última vez que ele acompanhou um casal de ciclistas, conseguiu escapar do assalto por pouco. Diante destas narrações resolvi facilitar a minha vida e a dele. Viajei de ônibus diretamente para Piura.

Não consegui alojamento nos Salesianos, mas em compensação os Bombeiros me receberam de braços abertos. Dormi três noites nos Bombeiros Voluntários de Piura. Valeu!

Encontro com Bu Yeol Norte Coreano
Encontro com Bu Yeol - Norte Coreano.
Depois de tantos dias descansando era hora de continuar a minha viagem. Faltava vencer pouco mais de 300 km para chegar à fronteira com o Equador. Saí de Piura bem cedo. Ainda era escuro. A pedalada foi boa e o vento era a favor. Pedalei 154 km e ainda poderia ter ido mais adiante. Antes de chegar à entrada de Talara encontrei um cicloturista Norte Coreano que iniciou a viagem no México a 7 meses. Ele também vai passar na casa do Lucho em Trujillo.


 
 
 
 
 
 
 
 
 
Acampamento em  el Alto
Acampamento em El Alto 
Às 17 horas cheguei a entrada da cidade de El Alto, um pequeno povoado às margens da Panamericana. Parei num posto de gasolina e procurei por um lugar para armar a barraca com segurança. Havia alojamento, mas custava vinte dólares. Um funcionário do posto, Henrique, foi muito gentil comigo. Mandou-me sentar e esperar que ele fosse falar com o patrão para arrumar uma sala para eu acampar. O patrão tinha acabado de sair, mas ele disse que voltaria em meia hora. Depois de duas horas de espera, fui procurar de novo o Henrique. Eu já estava cansado de esperar e já era noite. Ele levou-me então para um lugar atrás do posto onde os funcionários dormiam. Armei a barraca e depois de preparar o meu jantar, dormi até às 5h30min. 

19/06/2009 – PERU
El Alto → Cancãs = 58,73 km em 4h02min
Total pedalado até hoje: 3.499 km
Horas pedaladas = 264
 
Hoje senti o efeito do calor do norte do Peru. O sol começou a castigar cedo e tive que enfrentar várias subidas pesadas e vento contra. Cheguei a uma praia famosa, Máncora, mas não vi muita coisa interessante. Já tinham me alertado de que a cidade é muito cara.

Encontrei de novo o meu amigo Wolfgang, o austríaco que está viajando sozinho e que me fez companhia nas Termas no dia 13 de maio e em Trujillo no dia 10 de junho. Talvez nos encontremos de novo em Quito no dia 15 de julho. Poderia dizer que é o encontro do primo rico com o primo pobre. Cada um, a seu modo, estamos curtindo as maravilhas da viagem. Ele tem mais conforto e eu tenho mais aventura. No final o resultado é idêntico e os gastos bem diferentes.

Cancas, praia dos pescadores.
Cancas, praia dos pescadores
Ao meio dia cheguei à cidade de Cancas e como estava meio cansado, resolvi parar por ali mesmo. Ao entrar na cidade um senhor, dono de um mototaxi me parou e queira que eu fosse pernoitar na casa dele. Começou pedindo quinze dólares e baixou para quinze soles, cinco dólares. A casa ficava um pouco fora da cidade, mas não sei bem o porquê, não senti firmeza na proposta. Agradeci e segui adiante. Fui visitar a praia dos pescadores e bater umas fotos e na saída, encontro de novo com o mesmo senhor que voltou a me convidar para comer peixe na sua casa. De novo agradeci. Mais adiante encontrei uma senhora que aluga quartos. O preço era o mesmo, quinze soles. O ambiente é familiar. Coloquei a Tanajura dentro do quarto e aproveitei para descansar mais um pouco.

Estou numa região de deserto à beira mar. Toda a costa peruana é deserta. Chuva só nos meses de verão, janeiro e fevereiro. O resto do ano não chove. A água para abastecer a cidade vem das montanhas onde chove e há os glaciais. Aqui no norte, na província de Tumbes já se vê um pouco de verde, mas é uma vegetação tipo o nosso cerrado. Passei por uma grande área onde se cultiva o arroz, nos vales. Nos últimos dois dias viajei pela terra do petróleo. Ao longo da estrada se vê inúmeras bombas trabalhando 24 horas por dia na coleta do petróleo. E sabem quem está por aqui? A nossa conhecida Petrobras.

19/06/2009 – PERU
Cancas →Tumbes = 80 km em 4h55min
Total pedalado até hoje: 3.577 km
Horas pedaladas = 269

O descanso em Cancas foi bom. Serviu para restaurar as energias. A viagem seguiu tranquila num dia de céu nublado e temperatura amena.

Em cada povoado que eu passava era aquela festa. Alguns me chamavam de papai Noel, outros riam às gargalhadas e eu continuava o meu caminho. Faltavam sete quilômetros para chegar ao destino final, Tumbes. Parei para fazer a ultima merenda antes do meio-dia. Ai reiniciar a viagem pedalei uns 50 metros e o pneu dianteiro furou. Parei para consertar e vi que havia centenas de espinhos grudados nos dois pneus. Levei muito tempo para removê-los.

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